Exausto demais para permanecer naquela tortura, levantou-se e caminhou até a cozinha, decidido a acabar com todo o café de sua cafeteira, engolindo aqueles pensamentos que traziam o desconforto já conhecido junto a cada gole da bebida amarga. Recostou-se no balcão, segurando a caneca com o líquido quente e enquanto o tomava, quase pode ver a sua silhueta sentada sobre um daqueles bancos e sorrindo pra ele, envergonhada enquanto comia; em outros tempos ele faria a mesma velha pergunta sobre o motivo dela ainda sentir vergonha em sua presença, agora tudo que lhe restara a fazer era deixar o café de lado, junto ao vulto daquela que amava.
Na sala de estar, sentou no sofá e encostou a cabeça sobre as almofadas, suspirando pesadamente, numa tentativa frustrada de obrigar aquela ausência a ir para longe. Quase se entregou ao sentir o corpo dela subindo sobre o seu, obrigando-o a observá-la enquanto ajeitava os cabelos e implorava timidamente por carinho. Acabado, mas não derrotado, fechou os olhos pesadamente e se levantou, em outros tempos teria ficado, não importando como, nunca tivera como negar dar a ela o que faria até involuntariamente.
Saiu de casa, segurando as chaves do carro, mas desistiu de usá-lo ao vê-la encostada no capô, esperando por ele. Caminhou na direção oposta, mas gostaria de ter ido até ela, mesmo que isso não trouxesse a sensação duradoura da qual precisava. Depois de muito andar, chegou até a praia, tirou os sapatos e os deixou sobre a areia, sentando ao lado dos mesmos. Olhava em direção ao mar, mas mal podia prestar atenção nas ondas que se quebravam umas sobre as outras, estava ocupado demais observando sua garota segurando os cabelos enquanto andava na beira do mar.
Sem conseguir pensar no que fazia, levantou e caminhou em sua direção e sem perceber começara a correr. A água estava na altura de sua cintura quando percebeu que não iria alcançá-la, ela havia guiado ele até ali, mas o deixara para morrer, então finalmente se pegara totalmente derrotado por sua ausência, a raiva trouxera as lágrimas e a saudade trouxera o desespero. Em outros tempos ela teria esperado e teria segurado sua mão, juntando seu corpo ao dele, mas agora ele não passava de um homem se afogando em seus próprios sentimentos.
- Deus me perdoe, eu não quero incomodar, só estou tentando encontrar meu caminho. – murmurou, mas sentindo não ser o suficiente, berrou toda a dor que vinha guardando em si – Deus, você viu minha garota? Ela tem fugido dos meus sonhos, perdi a melhor coisa que você já colocou no meu caminho! Perdoe-me se eu fiz algo errado, você sabe que isso é de se esperar de mim! – gritou as palavras enquanto as ondas o empurravam para longe – Eu planejava pedi-la em casamento, Deus, não me castigue assim... – terminou em sussurros, incapaz de continuar, assim como dia após dia sentia-se incapaz de viver sem aquela que lhe trouxera o verdadeiro significado de vida.
Passou as mãos pelos cabelos e sentiu seu corpo terrivelmente pesado, sabendo que isso não era resultado de sua roupa encharcada e sim da sensação de derrota, a qual caminhou ao lado dele por todo trajeto de volta para casa. Dessa vez não a viu encostada em seu carro, assim como sua cama continuava vazia quando ele se atirou ainda molhado sobre ela. Fechou os olhos e passou uma das mãos sobre o lado direito da cama, sabendo que tudo que teria de sua garota agora, era sua ausência.


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